domingo, 22 de maio de 2016

Sobre ir embora

Há muito tempo eu reflito sobre as pessoas que entram e saem da nossa vida.

É o assunto mais clichê de todos os tempo chegando.

Digo, muita gente passa por nós. Todo os dias. A todo o momento. Durante nossa existência, as pessoas simplesmente vêm e vão. E são sete bilhões delas nesse mundo gigante e interminável.

É como se fosse uma salinha de viajantes: eles entram, depositam suas bagagens; ficam por um tempo indeterminado, e depois recolhem tudo e saem porta a fora. 

Às vezes esquecem uma sacola ou outra.

Às vezes, vão saindo devagarinho: ficam mais tempo do que deveriam.

Às vezes, saem tão rápido que num piscar de olhos, tudo acaba. Tudo fica vazio e não resta nenhum indício de que alguém esteve ali.

Desse movimento todo, resultam saldos positivos e/ou negativos. 

Contribuições. 
Destruições. 

Coisas que ficam na salinha, coisas que vão embora.

Há pessoas que pintam a salinha da sua cor favorita.
Há outras que mofam e descascam as paredes.

Há quem transforme a salinha em um sofá enorme com baldes de pipoca e filmes projetados na parede.

E tem pessoas que fazem da salinha um lugar escuro, úmido, frio e malcheiroso.

Alguns viajantes entram na salinha e tomam conta dela. Trancam a porta. Ficam esparramados e não deixam mais ninguém entrar.

Outros, entram e se escondem: ficam tão imperceptíveis, que parece que nem estão ali.

Tem gente que entra na sua salinha pensando em entrar na salinha de outra pessoa.

Tem outras pessoas que entram na sua salinha sem querer, e acabam gostando dela; ficam por lá.


O ponto é que as pessoas se vão.
Nenhum viajante fica pra sempre

E não importa o que ele deixou ou fez: a salinha é sua.

Apenas sua.

Você sempre pode consertá-la.
Sempre pode limpá-la.
Sempre pode perfumá-la.
Sempre pode abrir as janelas e deixar que novos ares entrem.
Sempre pode levar todo o lixo que ficou ali dentro para fora.
Sempre pode mudar de lugar os móveis.
Sempre pode repintar as paredes de uma cor bem bonita e vibrante. 
Uma cor que traga o sol de uma manhã de inverno. 
Uma cor que faça os teus olhos brilharem.

Porque, sim: a salinha é só sua. E cabe a você cuidar dela.

Sempre.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Eu transbordava

eu era um oceano
eu era a paz
aquele nascer do sol
que traz consigo a esperança

eu era a brisa
de uma manhã ensolarada de inverno
eu era o calor
de um abraço demorado

havia sentimento
havia um amor
que era meu
e teu também

era minha obra mais perfeita
a pureza
que tomava minha alma
e aquecia o coração

eu transbordava
de algo puro
que ainda não tem nome
nem endereço

mas foi
partiu

toda a energia
caiu de um penhasco
fez fiasco
corroeu o meu ser

transbordei demais
inundei
tu não tinhas como
abarcar a minha imensidão

o copo era pequeno
o prato, era raso
a alma, fechada
o coração, em atraso

e a mim restou
esvaziar o espírito
recolher a toalha
conviver com a dor

imaginar
como teria sido
um final colorido
dividir meu infinito

com quem o negou.