quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Tudo que cabe no final

Aquele era um dos momentos mais agradáveis da minha vida. Talvez também um dos mais despreocupados. Eu estava sentada na areia. Sentia a brisa do mar no meu rosto. Era um dia ensolarado de verão, mas por incrível que pareça, o calor não sufocava. O vento era refrescante. A praia era o melhor lugar para estar naquela hora. 

Olhei para o lado e vi que a pessoa que estava ali comigo sentia o mesmo que eu. Ou até muito mais. Seus olhos cansados, esbugalhados e de um castanho esverdeado acompanhavam o movimento das ondas minuciosamente. Era como se ela estivesse em outro mundo ou diante de um fenômeno que nunca havia visto antes. A brisa batia em seus cabelos fininhos, com a raiz alva como as nuvens. Ela não coloria o cabelo havia muito tempo. Sempre fazia questão de esconder os fios brancos, mas depois que as fases ruins chegaram, parece que não teve mais tempo para isso. Foi então que ela decidiu retirar o chapéu que protegia seu rosto do sol. Fiquei um pouco receosa, mas hesitei em chamar a atenção dela. Quando os raios de luz bateram em seu rosto, ela imediatamente fechou os olhos. A pele era enrugada. As marcas do tempo e de tanta vida se fizeram presentes mais do que nunca. Eu olhava aflita. Não sabia se aquilo era bom ou ruim. Mas logo minha preocupação se desfez quando ela esboçou um sorriso leve. Mas feliz. Feliz de estar ali naquele momento, sentindo o calor, a brisa, a vida. 

Nós nunca havíamos sido muito próximas. Na verdade, relações familiares às vezes costumam ser um pouco automáticas. Mas eu lembro muito dela durante minha infância. Sempre que chegava em sua casa, ela estava ocupada fazendo alguma coisa. Cozinhando, arrumando as flores no canteiro, plantando vegetais na horta, organizando a despensa. Ou às vezes estava sentada na clássica cadeira com almofadas ao lado do fogão. Uma ou as duas pernas esticadas no banco, chimarrão e o pires com biscoitos, queijo e salame ao lado. Eu ia direto dar um beijo nela, e depois corria até a gaveta do armário amarelo. No cantinho, sempre havia chiclete Bubbaloo. Ou balinhas de banana, que eu não gostava muito. Lembro também que eu adorava brincar em cima de uma espécie de "baú-banco" que ficava perto da pia. E ali eu ficava horas, com minhas bonecas ou qualquer outra coisa que me distraísse. 

Recordo-me das vezes em que ela me mandava pé-de-moleque em um pote cilíndrico branco com tampa. E eu sempre comia pensando nela e tentando imaginar ela preparando em casa. Ela fazia tudo. Não tinha problemas em estar sozinha, apesar da idade. Mas em algum momento, parece que tudo desapareceu. E eu nem lembro quando isso começou, muito menos de ter percebido. A idade nunca vem sozinha. Aliás, para ela já havia chegado há um bom tempo - mas os efeitos dessa chegada começaram a ficar mais destrutivos.

Só conseguia pensar que agora não havia mais Bubbaloo nem bala de banana. A horta morrera, o "baú-banco" ficara pequeno demais e a cadeira de sempre fora substituída pela cama. Que veio primeiro com a bengala, depois o andador e agora a cadeira de rodas. 

Ainda observando-a aproveitar o sol, lembrei-me da noite em que eu havia tomado conta dela, já que não podia mais ficar sozinha. Com problemas para dormir, ela sofria por não conseguir entrar no mundo do descanso e dos sonhos. Naquele dia eu lembro que só desejava ter poderes mágicos para fazê-la adormecer leve e tranquilamente, mas infelizmente essa não era a realidade. Na tentativa de fazer alguma coisa, deitei ao seu lado, na cama, e comecei a mexer em seus cabelos macios, fazendo carinho lentamente. Por mais que não funcionasse, eu só queria que ela se sentisse bem. Acolhida. Que não se sentisse sozinha nem por um minuto. Ela ainda lembrava-se desse carinho. Significou muito para ela. 

Desviei-me dos pensamentos quando ela fez sinal para que eu colocasse o chapéu de volta em sua cabeça. Com o rosto já protegido dos raios de sol, ela virou-se e olhou para mim. Com a expressão facial pálida e cansada, ela sorriu. Não disse nada. Apenas sorriu, pegou em minha mão e voltou a contemplar o oceano como uma criança que vê o mar pela primeira vez. 

E eu percebi que, depois de tanto tempo, todas as palavras que nunca haviam sido ditas, as coisas que nunca haviam sido feitas, os sentimentos talvez nunca sentidos, estavam naquele sorriso. E naquele momento. 

Era ali mesmo que eu queria estar. E ela também.