quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Olhar tira pedaço sim


Isso é um desabafo. Na verdade, encare como quiser as próximas palavras aqui escritas. 

O apartamento onde moro fica em uma rua movimentada. Sou estudante, geralmente fico a maior parte do dia fora e preciso fazer tarefas normais como ir ao mercado, ir à farmácia, levar o lixo, pegar o ônibus, etc. Coisas tão normais que, na maioria das vezes me causam desconforto. E é exatamente no momento de sair ou entrar em casa. 

Do outro lado da rua, em esquinas uma de frente para a outra, há dois bares que vendem bebidas, cigarros e essas coisas. Os dois locais são bem parecidos e reúnem, em sua maioria, homens bebendo, principalmente em dias de jogos importantes de futebol. Alguns clientes ficam dentro do bar, mas como o espaço é pequeno, muitos ficam pela calçada mesmo. Eu demorei a perceber o problema. Eu demorei a perceber que me incomodava. Imagine que você está num palco, e de repente inúmeras pessoas começam a olhar para você. Como se fossem avaliadores de algum tipo de concurso, jurados atribuindo uma espécie de nota à sua pessoa. É assim que eu me sinto quase toda vez que preciso entrar ou sair de minha casa. Porque para esses homens, olhar não tira pedaço. Mas eu digo que tira sim, e um pedaço grande da tranquilidade de uma mulher. 

É uma coisa que passa tão despercebida. Como eu disse anteriormente, eu demorei a me dar conta do quão incomodada eu me sentia ao sair de casa levar o lixo no container, ou sair para ir à farmácia e ter que passar pela rua das esquinas dos dois bares. Nesse caso, sem espaço na calçada e tendo que caminhar pela rua, eu sentia olhares em direção a mim, e com a cabeça baixa, seguia meu caminho, sentindo um alívio enorme à medida que me distanciava do local. E a coisa ainda ficava pior quando alguém abria a boca pra soltar um “linda” ou “nossa”. Só de pensar em precisar sair do meu apartamento para fazer algo na rua eu já me sentia inconscientemente incomodada e tentava procrastinar ao máximo. E isso não se chama preguiça. 

Então houve um dia em que eu pensei: espera aí, tem algo errado. São aqueles homens, aqueles ali mesmo, do outro lado da rua, que fazem eu me sentir assim? Por que eu, mulher, estudante, dezoito anos, preciso passar por essas situações? Por que eu já pensei em sair usando calça ao invés de short, mesmo num calor de quarenta graus, só para levar o lixo, achando que amenizaria a situação? Porque tudo isso me incomoda. Porque isso nem de longe eleva minha autoestima, e sim me faz sentir invadida. Porque eu não sou a primeira muito menos a única mulher que passa por isso e se sente dessa forma. E eu acho que nem preciso explicar o porquê de alguns homens se acharem no direito de fazer coisas desse tipo. Foi sempre assim. É tão “normal”. É pouco problematizado. Ninguém se importa, exceto quem sente. 

Eu não deixo de viver por isso. A gente meio que “aprende” a lidar com certas situações, quando na verdade o que se necessita é uma solução para um problema que, infelizmente, está longe de ser completamente resolvido. Eu tenho certeza absoluta que para muitas pessoas tudo o que eu escrevi aqui vai soar "frescura", "exagero", "mimimi". Pois então eu sou fresca, exagerada e mimizenta. Eu não mereço passar por coisas que me incomodam apenas pelo fato de eu ser mulher. Não sou obrigada a fingir que nada está acontecendo.

E nem você.