sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Estupro na USP e essa culpabilidade nojenta

deviantart.com/greyguardian
Em 2013, uma estudante de medicina veterinária da USP (Universidade de São Paulo) foi estuprada dentro de uma república no campus de Pirassununga durante uma festa. A menina, após ter bebido, decidiu ir até o quarto dormir e deixou a porta aberta porque uma amiga dormiria também no mesmo local. Um intercambista que estava na universidade entrou no quarto e, mesmo depois de a menina pedir para ele sair e dizer inúmeras vezes que não queria, ele estuprou a garota. Por trás. 

Alguns imaginariam que eu estou ressuscitando um caso que foi notícia há quase dois anos. Só que não. Isso só veio à tona no final do ano passado, e por uma razão que basicamente reina na sociedade: a culpada sempre é a vítima.

Após o ocorrido, a estudante gritou. Gritou para todos os lados. Ela correu, falou com o segurança, fez boletim de ocorrência, praticamente esfregou na cara da universidade todos os dias a maldita denúncia e, nada aconteceu. Ela teve medo. Ela perdeu dias de aula. Ninguém quis conversar com ela, ninguém deu ouvidos. Afinal, "quem vai nessas festas esperava o quê?" ou "você precisa aprender a se cuidar" ou até mesmo "isso não vai dar em nada e o agressor pode te processar por danos morais". É ridículo o quanto esse tipo de julgamento faz com que até a própria vítima se questione: "será que eu dei margem pra isso?". Não, moça. A sociedade que é hipócrita, machista e te oprime. Ela acha que se tu estivesse na igreja, nada disso aconteceria. Porque mulher deve se dar o respeito e ficar em casa. Mulher não pode usar uma saia curta. Mulher não pode beber nem dançar. Mulher não pode viver. 

O pior de tudo é ter que ouvir do agressor que "ela queria, ela bebeu, ela estava dando risada". Porque nessa mente arcaica, só porque uma garota bebeu e ficou feliz, ela está pedindo para sofrer um abuso. Porque um processo poderia destruir a vida do cara, como se o que essa menina sofreu não tivesse sido uma absurda destruição física e moral. 

O caso só se tornou público após várias denúncias de supostos abusos envolvendo estudantes universitários, que resultou na abertura de uma CPI para descobrir se as instituições estão sendo omissas com casos de violação de direitos humanos. É revoltante pensar que essa estudante em momento algum foi orientada corretamente sobre o que fazer ou a quem recorrer. Fragilizada com o que sofreu, ainda teve que aguentar comentários ridículos sobre como ela deve se portar ou viver a vida. 

Agora, o que resta à estudante é esperar. Esperar que "dê em alguma coisa" ou que algo seja feito. Eu acho que as universidades hoje em dia não estão preparadas para lidar com essas situações, tanto administrativamente como nos valores. É preciso um grande salto no modo de pensar da sociedade para que a mulher pare de ser tratada como um objeto, e a questão é que muitas pessoas não estão dispostas a dar esse salto. E é isso o que faz com que muitos casos como esse – e que são muitos - passem despercebidos; em branco; com agressores soltos e mulheres sem amparo.

Eu gostaria muito de conversar com a menina da USP, e com muitas outras que sofrem abuso quase que diariamente. Porque todas são guerreiras; todas querem mudança; todas têm uma identidade; e todas são mulheres.