quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A Voz

Os últimos dias foram de polêmica. Os insultos racistas ao goleiro Aranha por parte da torcida do Grêmio causaram vergonha. Causaram repulsa. Causaram expulsão. Causaram multa. Mas, acima de tudo, causaram a abertura de uma discussão que merece ser problematizada. Há quem diga que o Rio Grande do Sul tomou fama de racista. Realizando uma matéria sobre o assunto, recebi um depoimento que, sinceramente, deve ser compartilhado. E é por isso que eu estou fazendo essa postagem. Rozan Borges é gaúcho, alegretense, afro-descendente e estudante de Teatro na UFSM. 

Eu acho que a voz dele deve ser ouvida.


"Um estado colonizado em sua maior parte por europeus, reflexo da colonização da América Latina, têm seu alicerce cultural mais significativo nos costumes trazidos por esse povo. A influência cultural negra veio com os escravos, porém foi oprimida, ficando em segundo plano mesmo nas senzalas, onde os negros fingiam estar cultuando a imagem dos Santos da religião católica, com a imagem dos Deuses africanos atrás e executando seus ritos, como a capoeira, que era considerada crime e proibida até o século XIX, na ausência de seus donos. Essas ações, com o decorrer da história reverberaram impressões na aceitação e conscientização da população quanto à presença negra na sociedade, onde um branco, e muitas vezes também um negro, não conseguem reconhecer essa cultura negra como algo bom, bonito, assim como de certa forma reconhecem a cultura branca. 
Desse modo, acredito que não só o estado, mas também o país mantém um discurso de democracia racial inexistente, pois o negro é inconscientemente levado a cultuar costumes e a achar belo a estética eurocentrista. O simulacro da estética branca é um fato bastante presente em grande parte da população afro-descendente, onde o negro encontra a 'autoestima' e a 'aceitação' somente nesse contato, alisando seu cabelo, por exemplo, não lhe sendo confortável perante a sociedade apresentar-se mostrando e reafirmando a estética de seus ancestrais. 
A influência midiática brasileira tem papel fulcral nessa questão, pois ela não possibilita que o negro enxergue a sua realidade ali representada, a não ser de maneira clichê e estereotipada pela sua condição social. Tudo que é relacionado à cultura e a estética do negro ainda causam um estranhamento muito grande nas pessoas. O cabelo do negro é cabelo "ruim", a religião é "macumba" no sentido mais pejorativo que se possa imaginar, nariz de negro é nariz feio, "achatado" e assim por diante. Já sofri sim preconceito, desde o escrachado (o que tá me olhando negro?), até o velado, que se esconde em pequenas ações cotidianas. Ser perseguido pelo olhar do segurança do mercado, perguntas do tipo “como tu lava teu cabelo?” ou demorar a ser atendido em um bar ou loja do centro da cidade são algumas dentre várias. 
Em outro estado, creio que essas situações se repetiriam. Moro com um baiano - veja bem, a Bahia possuidora de uma população altamente negra - que me relata situações muito semelhantes e da mesma forma, recorrentes em seu estado. Essas questões, que não devemos jamais deixar de problematizar, infelizmente ainda estão fixadas na cabeça do povo brasileiro e intrínsecas à 'construção' da nossa sociedade."

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