segunda-feira, 9 de junho de 2014

Eu não sou um pedaço de carne

A coisa já começa errada no momento em que somos presenteadas com um fogãozinho de brinquedo e panelinhas na infância. Alguém já viu um menino ganhar algo assim dos pais? Claro que não. A mulher, desde muito pequena, já é criada com o pensamento "dona-de-casa-mãe-de-família". E isso é algo tão histórico e que perdura há tanto tempo na sociedade que já não é novidade para ninguém. E é exatamente aí que está o problema: esse estereótipo é algo tão “normal” dentro da sociedade que as pessoas não enxergam problema nenhum. É o “natural”. A mulher nasceu para cuidar da casa, da família e ponto final.

Sim, houve um tempo em que as coisas eram piores. Não podíamos sequer votar, estudar ou trabalhar. É fato que lutamos por nossos direitos, e conseguimos reivindicá-los perante a lei. Mas o pensamento das pessoas... Ah, o pensamento. Na teoria, tudo é muito bonito. Na prática é algo totalmente diferente. Ainda somos consideradas incapazes todos os dias. E isso se expressa em pequenas coisas que muitas vezes passam despercebidas pela maioria das mulheres. 

Eu confesso que a expressão que melhor me define no meio disso tudo é “pedaço de carne”. Porque, nessa sociedade que se diz tão “evoluída”, nós, mulheres, para muitos homens, não passamos de um pedaço de carne, que precisa ser macio, bonito e apetitoso. Eu posso exercer minha cidadania, sou livre para estudar o que eu quero, posso trabalhar, mas não posso usar uma roupa curta sem ser milimetricamente analisada. Não posso sair na rua sem receber comentários nojentos ou assovios. Muitas vezes não posso ganhar o mesmo salário que um homem, por mais que exerça o mesmo cargo. Não posso ficar com quantas pessoas me der na telha porque vou ser tachada de puta. Não posso fazer trabalho pesado porque não tenho físico. Não posso reclamar dos assédios do meu chefe porque perco o emprego. Não posso ser inteligente porque sou bonita demais. Não posso esquecer da depilação nem por um dia porque vou ser tachada de relaxada. Não posso, não posso, não posso. Nós não podemos. E tudo isso apenas pelo fato de sermos... Mulheres. 

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a mulher tem: 

1) Direito à vida. 
2) Direito à liberdade e à segurança pessoal. 
3) Direito à igualdade e a estar livre de todas as formas de discriminação. 
4) Direito à liberdade de pensamento. 
5) Direito à informação e à educação. 
6) Direito à privacidade. 
7) Direito à saúde e à proteção desta. 
8) Direito a construir relacionamento conjugal e a planejar sua família. 
9) Direito a decidir ter ou não ter filhos e quando tê-los. 
10) Direito aos benefícios do progresso científico. 
11) Direito à liberdade de reunião e participação política 
12) Direito a não ser submetida a torturas e maltrato. 

Agora, eu pergunto, quantos desses itens são realmente levados a sério na sociedade atual? Ainda pergunto: você, homem, que me chama de “gostosa” quando passa por mim na rua, quem te deu esse direito? Quem disse que você pode fazer isso? Quem disse que isso não é considerado um ASSÉDIO? Para nós, mulheres, até um mínimo olhar incomoda. Perturba. Invade. Desconforta. Machuca.

"Feminismo é um movimento social, filosófico e político que tem como meta direitos equânimes (iguais) e uma vivência humana, por meio do empoderamento feminino e libertação de padrões opressores baseados em normas de gênero. Envolve diversos movimentos, teorias e filosofias advogando pela igualdade para homens e mulheres e a campanha pelos direitos das mulheres e seus interesses." A verdade é que toda mulher deveria ser feminista por natureza. A igualdade entre os gêneros é essencial e todos deveriam pensar assim. Aliás: o dia em que o feminismo se tornar uma luta de TODOS, não apenas das mulheres, será possível mudar esse medíocre pensamento de que somos diferentes.

Moleskine

Ela desceu do táxi com o rosto parcialmente escondido por conta de um volumoso cachecol de lã preto. Uma das mãos estava abrigada dentro do bolso do casaco que ela comprara em um brechó no inverno passado. A outra puxava uma mala marrom surrada por conta de tantas viagens que fizera. E haviam sido muitas. Tantos lugares, tantas lembranças que ela fazia questão que se apagassem. Naquele momento, nada mais importava. Ela queria arrancar com a mão todos os momentos bons que havia tido com ele porque, apesar de bons, machucavam. Coisas boas que faziam mal. Aquilo era muito estranho para ela. Não fazia sentido. Não podia compreender como algo maravilhoso poderia tornar-se uma faca que dilacerava seu coração aos poucos. 

Lembrou-se de quando foram à praia juntos. O sol brilhava radiante no céu e o mar estava calmo como se também tivesse se contagiado com a beleza do dia. As pessoas na areia sorriam e aproveitavam o tempo, felizes. Mas nada poderia superar a felicidade daquele casal que caminhava pela orla, de mãos dadas, falando coisas idiotas e sorrindo sem motivo. Um bastava para o outro. E havia sido sempre assim. 

Tratou de espantar o calor da praia em sua mente e acordou para o frio que aquela noite de inverno fazia. “Nada de lembranças”, pensou. Era a primeira vez que viajaria sozinha. Caminhava em direção à porta do saguão do aeroporto em passos leves, sem pressa. Entrou. Era como se deslizasse em sua própria solidão. Dirigiu-se até o portão de embarque. Faltava aproximadamente uma hora e meia para que seu voo saísse, mas ela não se importava em ficar esperando. Na verdade, tudo que ela não queria era encarar uma viagem sozinha. Não queria entrar naquele avião e ver um desconhecido na poltrona ao lado. Não desta vez, e talvez nem nunca. 

Ela definitivamente não se sentia preparada para aceitar. Para abandonar tudo de uma vez. Observou o portão de embarque por alguns segundos e depois olhou em seu relógio de pulso: ainda faltava muito. Dar uma volta pelo aeroporto talvez fosse mais interessante. Ainda puxando sua mala, ela andou por alguns corredores, no piloto automático. Não sabia o que estava fazendo nem o que estava pensando. Só queria adiar aquilo o máximo possível.

Perambulou por mais alguns minutos até que parou na vitrine de uma loja. Parecia uma loja de presentes ou algo do tipo. Observou alguns objetos. Luminárias, almofadas, chaveiros... Um moleskine. Foi então que lembrou instantaneamente da época em que colecionava diários. Era mais jovem, devia ter uns catorze anos quando tudo começou. Costumava escrever todos os dias, contando sobre suas experiências, desilusões, surpresas, peripécias da vida. A cada ano começava um novo diário, e alegrava-se ao ler os dos anos anteriores – ria de si mesma ao lembrar tantas situações e dores inúteis que, no final das contas, haviam passado. Vida nova. Era tudo o que ela queria. Entrou na loja. Talvez por impulso, mas entrou. Foi direto ao moleskine que estava na vitrine. Pegou-o em suas mãos e folheou suas páginas em branco. Elas estavam ali, prontas para receberem uma nova história. Será que seria bom retomar o velho costume do passado? Lembrou-se de como as coisas em aeroportos eram caras, mas não se importou. Puxou uma nota do bolso e pagou o caixa. Saiu da loja, com as lembranças em uma mão e sua nova vida na outra. 

Foi caminhando pelo saguão ainda sem rumo, quando avistou um cartaz colado na parede. Uma peça de teatro. Aquela peça. Mas que droga, por que o mundo conspirava em fazê-la lembrar dele? Tudo o que ela queria era que um buraco se abrisse no chão à sua frente e que ela pudesse entrar nele e nunca mais sair. Nunca mais ter que lidar com a dor, com a solidão, com todas as coisas ruins que teimavam em não deixá-la em paz. E essa maldita peça, droga de espetáculo humorístico de quinta categoria, mas que na companhia dele havia sido hilária. Sentiu um enorme aperto no estômago e percebeu que algo se aproximava. Correu até o banheiro mais próximo, entrou na primeira cabine e deixou que tudo o que estava a fazendo mal por dentro saísse. Respirou fundo e escorou-se na pia por algum tempo. 

Ela perdeu a conta de tantas coisas que passaram por sua cabeça naquele tempo no banheiro. Quando acordou do transe causado pelo turbilhão de pensamentos, levantou a cabeça e olhou-se no espelho. “Esta sou eu”, pensou. Aquela era sua imagem. Uma mulher bonita. Inteligente. Talentosa. Mas destruída. Foi então que sua mente divagou por outros lugares. Lugares que ela não havia passado nos últimos dias. Lugares que, a propósito, eram bonitos. Lembrou-se de todos os sonhos que tinha em seu coração. Todas as coisas que ainda queria fazer, todas as coisas pelas quais era apaixonada. Coisas que realmente valiam a pena. O mundo era muito maior que todo aquele universo interior medíocre que ela tinha. Nenhum jardim repleto de flores acaba quando uma única murcha. Um desequilíbrio pode acontecer. Algo pode não funcionar corretamente. Mas outras flores nascerão! Tantas outras... E elas até poderão ser mais bonitas do que aquela pela qual ela havia chorado tanto. 

Ela olhou o moleskine que, por sinal, estava um pouco molhado por conta da água empoçada ao redor da pia. Puxou um papel-toalha e secou-o cuidadosamente, como se fosse o seu mais precioso tesouro. Foi quando, pelo alto falante do banheiro, ouviu a sua última chance de ser feliz: “Voo 822, última chamada para embarque”. Ela paralisou. Olhou-se no espelho mais uma vez. Decidiu dar a si mesma uma nova chance. Pegou a mala, o moleskine e correu até mais do que suas pernas podiam. 

“Espera por mim, espera por mim, espera por mim”. Cruzou a porta da sala de embarque às pressas e avistou o seu portão. As comissárias estavam prestes a fechar a passagem. Ela seguiu correndo. Já não tinha mais fôlego. Não se alimentava bem há dias. Mas, por uma sorte do destino, as comissárias a viram. Entregou seu boarding pass, ainda muito ofegante. 

“Bem na hora, hein”, falou a comissária de cabelo preso em um coque. 
“Na verdade, estou atrasada. Mais atrasada do que eu deveria.”. Ela sorriu e caminhou sem pressa pelo túnel de embarque que levava à aeronave. 

Já sentada em sua poltrona e olhando pela janela do avião, pegou o moleskine e abriu na primeira página. Escreveu a data. “Que se dane”, pensou ela. Havia sido tempo demais alimentando dores. Dores incontroláveis que teimavam em existir. Decidiu ser mais forte que elas. Por algum motivo deveria ser. Talvez por conta de seus sonhos, por conta de pessoas a sua volta que realmente valiam a pena. 

O avião começou o processo de decolagem. Seu novo moleskine não teria espaço para flores murchas. Só dependia dela.