quinta-feira, 18 de julho de 2013

Resenha: “Efeito Rashomon”

Recentemente, tive a oportunidade de assistir à Rashomon (1950), um longa-metragem japonês dirigido por Akira Kurosawa. Apesar de ser um filme antigo e consequentemente em preto e branco, a obra mostra como a diversidade de versões da mesma história pode impossibilitar a descoberta da veracidade dos fatos. Tudo começa com três homens em uma construção abandonada esperando um temporal passar: um lenhador (Takashi Shimura), um sacerdote budista (Minoru Chiaki) e um plebeu (Kichijiru Ueda). O sacerdote e o lenhador contam ao plebeu sobre o assassinato de um samurai, cujo corpo, inicialmente, havia sido achado pelo lenhador. Os dois haviam presenciado o depoimento dos envolvidos, então começaram suas narrativas.

A primeira versão da história a ser relatada em flashback foi a do bandido Tajomaru (Toshiru Mifune), que confessou ter matado o samurai, mas afirmou que inicialmente não tinha essa intenção. Ele relata que vendo o samurai (Masayuki Mori) com sua esposa (Machiko Kyō) passarem pelo bosque, ficou encantado com a beleza da mulher e atraiu seu esposo para longe, amarrando-o ao pé de um pinheiro. Logo depois, o bandido levou a mulher até o lugar onde o samurai estava preso e a tomou em seus braços. Depois de estar satisfeito por ter conseguido estuprá-la sem precisar matar o samurai, Tajomaru tentou ir embora, mas a esposa exigiu que um dos dois morresse. O bandido cortou as cordas do samurai e os dois lutaram, até que Tajomaru conseguiu matá-lo. Finalizada a luta, ele tentou procurar a mulher, mas ela havia fugido.

A segunda versão da história é do ponto de vista da mulher do samurai. Durante seu depoimento choroso e desesperado, a moça alegou que após Tajomaru abusar dela, simplesmente fugiu e deixou seu marido amarrado. Após ficar algum tempo chorando caída no chão, ela foi até seu marido e se sentiu totalmente desconfortável com seu olhar de desprezo. Ela pediu que ele não a olhasse desse jeito, que a matasse, mas o samurai não demostrou reação alguma. A esposa acabou desmaiando e, quando acordou, encontrou o marido morto com o punhal dela.

A terceira versão é a do samurai morto que se manifesta através de uma médium (Fumiko Honma). A vítima contou que após abusar de sua mulher, o bandido tentou consolá-la e, caída em um transe, a moça se entregou a Tajomaru. Antes de ir embora com o ladrão, a esposa pediu que Tajomaru matasse seu marido. O bandido ficou atônito com o pedido da moça e imobilizou-a no chão com o pé, perguntando ao samurai se devia matá-la ou poupá-la. Por descuido de Tajomaru, a mulher fugiu e ele foi atrás dela. O samurai, completamente desolado, pegou um punhal e se suicidou.

A quarta e última versão é inesperada. O lenhador conta ao sacerdote e ao plebeu que mentiu em seu depoimento. Ele alega ter presenciado tudo o que acontecera no bosque e conta sua versão. Segundo o lenhador, o samurai não morrera com um punhal, e sim com uma espada. Após Tajomaru ter abusado da mulher, ele tentou pedir perdão e convencê-la a casar-se com ele. A moça disse que quem devia decidir seu destino eram os dois homens em questão. Então Tajomaru desamarrou o samurai para que a luta começasse. Entretanto, o samurai disse que não queria arriscar sua vida por uma mulher desonrada e disse que Tajomaru podia ficar com ela. O bandido ficou confuso e pediu para que o samurai não a “tiranizasse”, pois as mulheres eram, segundo ele, fracas. Nesse mesmo instante, a esposa se revoltou e rebateu, dizendo que os dois homens sim eram fracos por não terem a capacidade de lutar por ela. Isso fez com que os dois lutassem e, no final, o samurai acabou sendo morto por Tajomaru. A esposa, como em outras versões, fugiu.

Apesar de o filme possuir alguns pontos peculiares na atuação dos personagens e em algumas cenas, como a risada excessiva e forçada e as lutas de espada que parecem um pouco confusas, a produção de Akira dos anos 50 traz uma lição que pode se aplicar a momentos do século XXI. No filme, cada personagem envolvido no fato em questão conta o que aconteceu com o interesse de proteger sua própria honra. O bandido alega que foi justo por ter deixado o samurai lutar, a mulher tenta “se livrar da culpa” dizendo que ao acordar encontrou o marido morto e o samurai, ao ver que havia falhado em sua missão, conta que praticou o Seppuku, suicídio honrado feito com um punhal. Em contraposição, o lenhador conta outra versão do acontecimento vista de longe por alguém que inicialmente não possuía interesse algum no fato, mas que com o desenrolar da história, descobre-se que não contou sua versão no Palácio da Justiça por ter roubado o punhal valioso da moça.

Ter assistido à obra prima de Akira lembrou-me do Brasil deste ano de 2013, que entrou em clima de tensão quando a insatisfação com o aumento da tarifa de ônibus gerou uma onda de manifestações no país, fazendo com que o povo fosse às ruas lutar por seus direitos. Uma questão que gerou discussão nas redes sociais e nas rodas de conversa entre amigos foi o modo distorcido com o qual a mídia massiva abordou os fatos, assim como cada cidadão possuía um ponto de vista diferente sobre a onda de protestos.

Atualmente podemos notar que as emissoras de televisão (principalmente a rede Globo), tendem a defender seus interesses governamentais em coberturas de casos polêmicos e que podem afetar a imagem do governo. Com o surgimento de inúmeras pautas a partir de uma só, vários grupos saquearam lojas e depredar o patrimônio público. Essa “minoria”, como dizia a Globo, era frequentemente mostrada na televisão como oriunda dos protestos, gerando uma visão totalmente distorcida para o público. Esses fatos ilustram de forma coerente como a divergência de versões sobre um mesmo acontecido, que é tratada em Rashomon, pode confundir o ser humano, que se torna incapaz de achar a verdade.