quinta-feira, 20 de setembro de 2012

''Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo.''


Eu geralmente não aprecio muito assistir filmes brasileiros, e são raros os que realmente conseguem chamar a minha atenção. Porém, há um filme um pouquinho velho que eu assisti há pouco tempo e que eu gostei muito. É a belíssima obra dirigida por Jayme Monjardim em 2004: Olga.

Quando o filme estreou nas salas de cinema eu ainda era muito pequena e não fiquei interessada, até porque não iria entender a história e não conhecia o que estava se passando na época do filme. Afinal, o que uma criança de 8 anos iria entender sobre a Segunda Guerra Mundial e a Intentona Comunista? Os anos correram e em 2012, depois de uma aula de história sobre a Era Vargas e a sugestão de um professor, lá fui eu alugar o filme Olga. Eu assisti uma vez, depois assisti de novo, refleti e cheguei a conclusão de que esse filme é, na minha opinião, a melhor produção brasileira de todos os tempos.

Olga Benário foi uma alemã de origem judaica, comunista e cheia de sonhos e ideais. Ela deixou a família ainda muito jovem em Munique, na Alemanha, e partiu para Berlim. Fez parte do Partido Comunista Alemão e foi presa juntamente com seu namorado Otto Braun, os dois sendo acusados de traição à Pátria. Olga foi solta, entretanto, seu namorado ainda continuou na cadeia. Ela então planeja um assalto à prisão de Moabit e consegue libertar Otto. Os dois fogem para a União Soviética mas se separam em 1931. Lá, Olga recebe treinamento político-militar e trabalha como instrutora na Seção Juvenil da Internacional Comunista.

O filme realmente começa quando Olga recebe a missão de ser guarda-costa do brasileiro e também comunista Luís Carlos Prestes, que finalmente tinha sido aceito no Partido Comunista Brasileiro (PCB) e estava exilado na União Soviética. Ambos fingem ser um casal português para conseguirem viajar até o Brasil na clandestinidade, mas acabam se apaixonando e a farsa se torna realidade. Chegando no Rio de Janeiro, os planos vão por água abaixo e se dá o que ficou conhecido como a Intentona Comunista: Vargas declara a ANL ilegal e vários comunistas começam a ser presos, até que Olga e Luís são separados e ela é deportada para a Alemanha de Hitler, grávida e em condições precárias nos porões de um navio. Minha narração do filme termina aqui pois não quero dar spoiler sobre o final. Mesmo que o filme seja antigo e conhecido, é bem provável que existam pessoas que ainda não viram e tampouco conhecem a história da brava Olga.

Há dois motivos fortes que fizeram com que eu gostasse muito do filme. O primeiro deles é, com certeza, a história de vida de uma mulher que lutou contra tudo e todos por seus ideais, sofreu, foi separada de quem amava e mesmo assim nunca perdeu a vontade de viver e de mudar o mundo. Acho que Olga é um exemplo para todos nós. Não devemos deixar de lutar por aquilo que queremos, e é de se comparar a época em que ela vivia e o tempo que vivemos hoje: não havia liberdade de expressão, as pessoas eram submissas. Hoje, possuímos tantos recursos para compartilhar nossos pensamentos e ideias, e mesmo assim muitas pessoas desistem do que realmente querem.

O segundo motivo é a atuação e a produção que o longa-metragem possui. Olga é interpretada pela atriz Camila Morgado, que honestamente deu um show de atuação, fez um trabalho maravilhoso e com certeza merece destaque. As cenas são muito bem feitas e é impossível não ficar compenetrado em frente a televisão. Por ser um filme brasileiro, Olga é nota dez.

Abaixo, deixo a última carta que Olga escreveu ao marido e a filha no campo de concentração de Ravensbrück (contém spoiler): 

''Queridos: 

Amanhã vou precisar de toda a minha força e de toda a minha vontade. Por isso, não posso pensar nas coisas que me torturam o coração, que são mais caras que a minha própria vida. E por isso me despeço de vocês agora. É totalmente impossível para mim imaginar, filha querida, que não voltarei a ver-te, que nunca mais voltarei a estreitar-te em meus braços ansiosos. Quisera poder pentear-te, fazer-te as tranças - ah, não, elas foram cortadas. Mas te fica melhor o cabelo solto, um pouco desalinhado. Antes de tudo, vou fazer-te forte. Deves andar de sandálias ou descalça, correr ao ar livre comigo. Sua avó, em princípio, não estará muito de acordo com isso, mas logo nos entenderemos muito bem. Deves respeitá-la e querê-la por toda a tua vida, como o teu pai e eu fazemos. Todas as manhãs faremos ginástica... Vês? Já volto a sonhar, como tantas noites, e esqueço que esta é a minha despedida. E agora, quando penso nisto de novo, a idéia de que nunca mais poderei estreitar teu corpinho cálido é para mim como a morte. 

Carlos, querido, amado meu: terei que renunciar para sempre a tudo de bom que me destes? Corformar-me-ia, mesmo que não pudesse ter-te muito próximo, que teus olhos mais uma vez me olhassem. E queria ver teu sorriso. Quero-os a ambos, tanto, tanto. E estou tão agradecida à vida, por ela haver-me dado a ambos. Mas o que eu gostaria era de poder viver um dia feliz, os três juntos, como milhares de vezes imaginei. Será possível que nunca verei o quanto orgulhoso e feliz te sentes por nossa filha? 

Querida Anita, meu querido marido, meu Garoto: choro debaixo das mantas para que ninguém me ouça, pois parece que hoje as forças não consegu em alcançar-me para suportar algo tão terrível. É precisamente por isso que esforço-me para despedir-me de vocês agora, para não ter que fazê-lo nos últimas e difíceis horas. Depois desta noite, quero viver para este futuro tão breve que me resta. De ti aprendi, querido, o quanto significa a força de vontade, especialmente se emana de fontes como as nossas. Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até o último instante não terão porque se envergonhar de mim. Quero que me entendam bem: preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue. Mas, no entanto, podem ainda acontecer tantas coisas... Até o último momento manter-me-ei firme e com vontade de viver. Agora vou dormir para ser mais forte amanhã. Beijo-os pela última vez. 

Olga'' (ABRIL, 1942)

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